Já há algum tempo que me provocava o
desejo de escrever sobre este filme que tanto me impressionou. As primeiras
cenas de "Nós que aqui estamos por vós esperamos" (1999) me chegaram
aos sentidos através de um programa de televisão. Fragmentos em preto-e-branco,
imagens do século XX... e o título! Só o título já seria suficiente para me
instigar a curiosidade: nós quem? vós quem? por que esperam? Mas o fato é que
apenas agora o desejo materializa-se em palavras, e apenas agora o desejo
tornou-se insuportável, porque escrever talvez seja isto: uma catarse. Enfim...
Nós que aqui estamos por vós esperamos é
a frase, sentença que assusta, que o diretor Marcelo Masagão encontrou cunhada
no portal de entrada de um velho cemitério. E aconteceu aquela coisa tão comum
nas artes: o acaso buscou perpetuar-se. É esta sentença que nos alerta, ou
melhor, que nos devolve o senso de humildade, que marca a proposta do filme,
que é a de discutir a banalização da morte e, por extensão, a banalização da
vida. E Masagão consegue então construir um poema visual - quase não há
palavras - pois o filme que nos apresenta constrói-se de breves momentos do
século XX perpetuados pelo registro perspicaz, ou apenas incidental, de velhas
câmeras e anônimos cineastas do acaso. Uma profusão de imagens que se sucedem,
envolvem-nos em uma trama fortuitamente tecida e que desafiam àqueles que crêem
no plano da vida, na linearidade dos acontecimentos. Imagens que nos
transportam da dor, do sentimento de vergonha em relação ao ser humano, ao
encantamento, ao deslumbramento, pois é humano, e sempre "demasiadamente
humano", o ódio e o amor. Portanto, não é um filme pessimista, é um poema,
e como tal, desequilibra. E o primeiro desequilíbrio que me esbofeteou o rosto
foi o de perceber que aqueles que via na tela, pessoas comuns que possuíam uma
data de nascimento, um nome e, quiçá, sonhos, eram pessoas comuns! Eram, sim, e
que contribuíram, consciente ou inconscientemente, na construção deste mundo que
com tantos prazeres e desprazeres nos brinda hoje. Pessoas esfalfadas no
cansaço provocado pelo sempre tão importante trabalho; pessoas felizes, que
sorriam, gargalhavam até, ou pessoas desesperadas, naufragadas em prantos. O
século XX foi estas pessoas e aquilo que sonharam ou deixaram de sonhar!
Não pude permanecer indiferente ao
filme, e também quis elencar as imagens que me marcaram neste século cujo fim
já festejamos. Apesar de muito jovem e de ter vivido apenas o último quartel do
século passado, algumas cenas permanecem indelevelmente marcadas em minha
memória, tatuadas em minhas retinas, como a do jovem chinês que enfrentou uma
coluna de tanques na Praça da Paz Celestial ou a da enorme multidão que se
lançava sobre um punhado de arroz lançado no solo árido de sonhos da Etiópia.
Lembro-me, e ainda com assombro, da inenarrável massa de homens de torso nu,
qual formigas, a subir e descer a enorme cratera de Serra Pelada em busca de
ouro; bem como não posso esquecer do cheiro e da consistência da tinta com a
qual marquei meu rosto em protesto ao governo Collor. Jovem como sou, os
últimos suspiros da ditadura militar brasileira só me chegaram como uma amarga
brisa, era criança, e como tal, só percebia meus brinquedos e um pouco do medo
que se ia nos rostos de alguns, e por isso me soava como um mito saber dos
tempos em que estudantes se lançavam às ruas em protesto, empunhando nas mãos
uma bandeira e acalentando no peito um desejo. Quando pintei meu rosto e me
juntei aos muitos que cantavam "Para não dizer que não falei das
flores", a brisa transformou-se em furacão, e então pude entender
aquilo que só me tocava de leve. Este entendimento provocou-me cicatrizes que
dificilmente serão apagadas - e nem quero que se apaguem!
Muitas imagens carrego, algumas de antes
de ter nascido, como a do corpo franzino de Gandhi que arrastava atrás de si
uma Índia inteira e que unia os opostos através da sua fome. Como esquecer
Gandhi?! E como esquecer Chico Mendes, tão covardemente morto? "Nós que
aqui estamos por vós esperamos", e um dia também esperaremos nós, e que
sejamos lembrados por aquilo que fizemos! Ao "esperar" não quero que
lembrem o século XXI pelas torres que tombaram, nem pelos corpos insepultos dos
palestinos tão covardemente assassinados e dos judeus vitimados pelo ódio. Não
quero que se nos lembrem pelo sangue que manchou a pequena ilha do Timor (e que
ainda mancha), mas pelo aroma do sândalo que voltará a recender na terra
"em que o Sol nasce primeiro". Ainda há tempo, o século apenas
inicia, e sonhar que o silêncio dos funerais pode ser substituído pelo silêncio
daquele que ouve e, ouvido, sabe compreender e, sabendo compreender, aprende a
conviver, ainda é possível.
Nós que aqui estamos por vós
esperamos", também esperaremos... E que o próximo filme possa mostrar que
a banalização da vida ensinou-nos a valorizá-la. Afinal, o século XXI seremos
nós, nossos prantos e nossos sorrisos, nossos sonhos e aquilo que deixamos de
sonhar.
Viega Fernandes, Historiador
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